Após Roteiro Drive
Vem
pronto o filme.
Agora o drama acorda o sonho.
Vê-se vendo.
Ao
ser tocado pela visão - a boca, a palidez, o movimento dos cabelos num
vento insípido, a barreira-flâmula de papel-parede sob o queixo
-, sua displicência e calma ignorante não deixarão de lhe
causar espanto e um bem-estar dissimulado, que também sente ao inquirir
sem palavras, e talvez involuntariamente, pelo gozo daquela adoração
serena, sobre a sua salvação àquela aparição
gélida e sedutora. Em resposta, ela profere excepcionalmente em prosódia
simples: "Olha o espelho e diz seu nome ao contrário"...
Novamente ele verá flashes do seu rosto na cama de olhos fechados, abertos,
ansiosos, fechados, andando, abertos ansiosos, e aquela ordem, aquela sentença,
como que instigante irrecusável, também piscará num encadeamento
nebuloso de desespero e apreensão, que o leva a cumpri-la em frente ao
espelho, como ação instintiva pela crença na abstração
de um conforto imediato. Seu reflexo aparecerá não e pelos seus
olhos no espelho frio; numa tentativa de se redimir, e ainda em meio às
aparições azuis da mulher salvadora, diz, acompanhando todos os
movimentos de suas faces, que porém não se relacionam como imagem/reflexo,
numa falsa simultaneidade, dando a impressão de outros fonemas na sua
boca do espelho, que, a cada sílaba, menos se mostrará familiarmente
sua: "RRO-BU"...
Pavor invade e invadirá toda a sua lucidez nesse momento de pavor.
Os flashes piscando, agora não somente a mulher azul e toda a sua necessidade
em obedecê-la torpe, mas também o reflexo mudo tão estranho,
personificando-o mais frio e cinza e diferentemente arrogante e independente
no plano da profundidade cinza, assolam sua frágil consciência
nesses momentos de assombro e frenesi cinzas - e talvez noutros futuros.
Ele sabe que aquela será e é sua maior ameaça e, questionando-se
sobre a credibilidade do seu anjo azul, não deixa de esboçar certo
desapontamento de frustração doída e irreparável.
Medo e fuga se seguirão aos seus olhos em contemplação
alucinável da sua sonolência à terror e avidez pela evasão
inconseqüente que verá atormentado. Desvia-se de tudo que era nebuloso-azul-cinzento,
como que renegando aquilo, aquele cenário fantasmagórico e de
familiaridade estranha, a um espaço menor no seu pânico; corre
pelo hall/escada/sala/cozinha, saindo do quarto numa visão entrecortada,
facetada como um slide da surpreendente também azul gradação
da sua histérica correria... cinza.
Passa pela porta do quarto que nem vê e o hall transposto numa curva alucinada,
que parecerá uma pausa de desespero, é esquecido escada acima;
num trote sobre os degraus amarelos, porém apagados na mesma atmosfera
embaçada, vence o primeiro lance de escadas, e o segundo, chegando à
sala. Vê seu pai dizendo palavras que a ele lhe parecem ininteligíveis,
mas sabe que são apenas banalidades mudas; ao passar por ele e a sala,
sempre correndo em meio às falhas do tempo do slide, entra na cozinha
e cruza com sua mãe dirigindo-se a ele com mais banalidades ignoráveis,
que ignora, tentando porém disfarçar todo o seu medo, assim como
fizera com o pai, com gestos avulsos em mímica vulgar e descoordenados;
passa por todos, e, de súbito, toda aquela epopéia da fuga do
medo maior toma forma também de coisa menor e esquecível no fundo
da nova ansiedade, que lhe vem numa excitada sensação de irremediável
e definitiva esperança segura...
Apagado, assim, o espaço à sua volta, e transformadas sua percepção
e sensação, de velocidade e desespero em velocidade e precisão,
pode então atender com certo alívio a seu instinto, universal
e momentaneamente remediador: extrema necessidade de se ver em frente ao espelho
novamente e se salvar.
Nova correria igual mas menos detalhada ou descrita em seu percurso e mais louca
e impetuosamente correra; corre pelas escadas acima e verá lâminas
de realidade embaçada cortarem-lhe os perfis como painéis-mosaicos,
paredes de um túnel leitoso e fragmentário lançando-se
para trás de um trem que segue sua linha para o seu fim, e vai rápido
pensando e repetindo: "é só dizer... é só falar
de novo... que tudo passa... eu tenho de dizer, lá...". Segue assim,
no que é uma imediata passagem para a salvação, tão
rápida, conturbada e densa, mas instantânea, e que parecerá
contudo uma jornada idílica, conturbada e densa, para a última
cartada infalível e a salvação...
Agora vê seu rosto seu, no espelho de novo, no escuro, um pouco azul;
sua ansiedade é a maior; não pensa, diz, ver-se-á dizendo,
como um suspiro: "BURRO"...; todo o flashback pisca; azul, preto,
cinza, branco, olhos, lábios, azul, pisca; leveza, branco, alívio,
paz, apreensão, pouco, luz, água; claro, pálpebras, chuva
na janela...
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Cor; verá um cubículo com clarabóia, de arquitetura velha,
estreito, resultante de uma antiga reforma, na qual lhe tiraram a qualidade
de banheiro para - com agora só uma porta lacrada, uma parede limbosa
e duas janelas como suas quatro faces, cobertas à meia altura por azulejos
amarelados - darem-lhe a oportunidade de assistir e sentir a chuva e a agitação
dos olhos, numa das janelas, extasiados.