Homérica Latrina
Novela
vi
o lento
matraquear do telejornal;
depois,
vi-me vendo, feito bambu
da família dos chorões,
arqueado sob o eco, a dor,
o novelo capitular
da homérica latrina.
*
Gruta fresca untada a gordura vegetalhidrogenada.
Jukebox de margens vermelhas do néon que chia.
Tripa de mico curada a solstício em vaselina seca.
Galho de ébano sem casca marenado por quarenta tardes em azeite já
curtido com cogumelos e salsa.
*
Taquara verde cobre o gringo do sol das quatro e através de uma chapa
têxtil, grossa mas flexível, a humana pila a erva em uma tábua
com fendas talhadas a cobre pelo dono da caverna. O visco substancioso capilariza
os sulcos, nivelados em aclive de dois dedos dos dez da humana, concentrados
na prensa da erva na base, e sobe até a extremidade, gotejando numa pilastra
vertical de pau com uns setenta centímetros de altura. Enquanto o suco
grosso escorre reticente como parafina em vela lenta pelos lados do toco abaixo,
para depositar-se como lava amarela na bacia de cabaça, uma sua parte
agrupa-se num lodo translúcido, quase indeciso entre a rigidez irremediável
e a solvência quente dos que derretem, no topo do cilindro de galho morto.
O gringo levanta-se da malha feita de fibras, encolhe-se no umbral da porta,
torneada com alguma estética entre hieroglífica e arabesca e artnouveau,
franze as lombadas da testa e cospe na areia fofa do chão da caverna.
Conduz o olhar à humana e grita provérbios de sua terra aos engasgues.
"Steih gdeo tho rival ape mi woldr bost dan rer colonission bests, quenai
quiu ãs bai de tchubi de creite possessessixam incoscisentch...!"
"Não, Dotô, né feitiço não. E, se o sinhô
num se importá, num cospe aí no chão da gente que as criança
pisa. Discurpa a franqueza, mai cuspe de estrangero que nem o sinhô dá
a pió das maleita nos fio de pobre! Mai o dotô queria sabê
que qué isso que eu tô socand'aqui, num é? Né feitiço
não, é "mé-de-invitá-oio-gordo". Essa
foia aqui é de pé-de-manunleva, uma prantinha cherosa que dá
ali nas marge do Rio Sã. Depoi de bem socadinha, vira essa baba marela.
O tanto que gruda no toco nóis raspa e passa nas mão, nos pé
e nos baguinho dos minino-home, quando nasce, qué pr'eles num criá
unha de águia nas mão, sabê pulá os cuspe da maleita
e privini que o capeta num dê cria no meio de nóis. Já o
tanto mai ralo que escorre na cuia, nóis dexamo apurá, misturado
cum áua, no relento de duas noite calorenta e depoi usamo pra pingá
nos óio, esfregá nos peito e lavá as cabeça de todo
mundo nos quatro primero dia do mêis do inverno, quano é co capeta
cria força pra atazaná nosso mundo aqui dos humano."
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"Meidei, meidei! Nossos asas no suportam, nossos asas no suportam, mai
capitam! prshhhhh! Biguedil-fór-sévem chamandou Greitearrentinoumanzana!
Biguedil-tri-for-sics chamandou Greitearrentinoumanzana! prshhhhh! Meidei!"
Três cadáveres gringos e o quarto geme, abrindo as pálpebras
para as lanças de luz, às quais os galhos mais altos permitiam
passagem e as dirigiam metodicamente para surpreender as retinas embaçadas
do náufrago da rain forest. O mapa molhado Biodiversityland escuda a
visão e o gringo pode perceber a aproximação dos dois humanos
com as lanças em riste. Ágil como nunca se viu, ele salta dentre
os restos da sua águia 4-7, desmembrada sobre o pavimento biológico
fofo do pé das árvores, e assume a postura de um atleta após
o tiro, sai correndo sem olhar para trás, aqueles humanos nus sob trapos
de shorts adidas, aquelas expressões canibalescas dos aborígenes
que devoraríam-no...
Um papagaio grita, sobre a carnaúba:
"Atenção! Rain Forest, rain!"