O Grilo
Acordei
parado. Não sei por quê, estático - numa atonicidade daquelas
daqueles sonhos intranqüilos. Um barulho abafado, distante mas onipresente,
me senti um trilho, ou antes uma sua molécula apenas, se o trem estivera
ainda longe mas já dentro de mim. E, como o trilho, mas sem sua calma
empírica, eu paralisado naquela balbúrdia envolvente, ignorante,
parado, arregalado como aos primeiros indícios de um terremoto, ainda
sem atinar se desastre natural ou juízo final.
Comecei a ser bombardeado. Aquelas bombas, bolas de um mercúrio translúcido,
viscoso, umas do tamanho da minha cabeça, atingindo meu corpo, maculando-o
com seu peso e visco, coziam-no aonde caíam, eram quentes as bombas.
Grudaram-me ainda mais na minha estatez, que eu queria vencida, extrapolada
pela força do assombro, desejava, mais que tudo, um movimento, ao menos
mudar a posição, me mexer milímetros, obrigar aquele meu
jazigo de superfície, aquela mortalha adesiva, a se adaptar a mim em
novo ângulo, a saber que não capitulo sem luta, a mínima
luta de um derradeiro passo ao lado. Passo dado, fim de forças, bandeira
branca, sou todo seu, poderosa névoa grossa, que começa agora
a apagar minha alma, que nunca precisei provar à existência. Desintegra-me
nessa sua câmara hiper-bárica com que me toma todo, atrofia minhas
asas, assa-me a essência, catatoniza-me, fossiliza meu corpo para seu
deleite, úmida força estranha!
Entreguei-me, assim rude, herético... Fui castigado, pela inexorável
mania de punição das divindades onipotentes: violenta, uma massa
de vento quente me arrebatou daquele claustro colante a céu aberto, me
extirpou da minha raiva autopiedosa e sacrílega. Fui arremessado contra
a parede de vidro e caí, vazio de vida, estanque.
Agora, sou objeto paralítico, múmia e mártir, em decúbito
eterno. Morto no mesmo lugar, agora frio e seco, abandonado pela Providência
alienígena que me sacrificou à revelia. Acho, porém, que
ainda sonho aqueles sonhos intranqüilos.
::
Ele foi tomar banho. Não gostava de tomar banho de manhã logo
que acordava. Ou melhor, não gostava de ir tomar banho logo que acordava.
Depois de lá dentro, era bom, o solzinho na janela, a névoa do
vapor amarelo, aquela sensação de bom dia, dia... O respeito que
se conferia com o banho da manhã, um ar de responsabilidade, de cúmplice
ao trabalho dos justos, a auto-aceitação social, sem a culpa das
olheiras ao meio-dia, do cigarro café-da-manhã. Até iria
à padaria, até fumaria, íntegro, à espera, na calçada,
com a vizinha de xale, comentando os acho que vai esquentar mais tarde, a balconista
sonolenta, preguiçosa!, levantar a porta da padaria, às sete da
manhã. Compraria pães e leite, até tomaria um café
com os aposentados de colete, comentando as pesquisas eleitorais do jornal ainda
morno, com ares de aposentado aos 30 anos, íntegro, cúmplice,
responsável, de banho tomado e olhos despertos para o dia de branco.
Em casa, coaria café, tomaria com leite e cigarro na varanda, esperando
o meio-dia pra sair andando rápido, horário de almoço,
no ritmo dos justos, até o prato-feito da esquina. Comeria sem pressa,
até as duas, apagando o cigarro no resto do suco de laranja no copo de
plástico, apenas preocupado em sair antes que o japonês comece
a baixar as portas do horário de almoço.
Pelado no box, esse chuveiro!, girou a torneira e nada, até um estalo
e o jorro forte de água fria. Tem que ir fechando devagar pra ir esquentando,
o pior momento, os pingos frios antes do banho redentor da manhã. Se
esquenta muito, tem que abrir até o estalo e adiar a redenção
por mais alguns pingos frios. Já redento, sem pressa, já matutino,
ele pegou o frasco de xampu anti-caspa no rebordo da janela. E esse bichinho
aí?, não sei como dá tanto bicho nesse banheiro, esses
bichos acho que gostam da umidade, sei lá, algum tipo de atração
instintiva, o calor úmido, as florestas tropicais, já que a vida
começou na água, acho que eles vem pra cá, buscar as origens.
Um bichinho pequeno, um grilinho morto grudado na umidade do azulejo, um ser
que parece que está mais próximo do início das coisas,
já que somos já evoluídos, já macacos e girinos,
sei lá.
Ele deixou o xampu agir na cabeça, tem que repetir a operação
para melhores resultados, e pensa como é o tamanho dos pinguinhos que
respingam do seu ombro no grilo, para o grilo, já que suas proporções
são desproporcionais à água, igual a gel, aquelas bolotas
de água dos astronautas, bolhas que parecem o mercúrio do termômetro
quebrado, aquele cara do Exterminador do Futuro; capilaridade, é isso!
aqueles tubinhos do professor de física, a borda do copo que não
deixa a água cair até certo ponto, fica até uma cúpula
de água. E aquelas aranhas que andam na água, no documentário,
como se tivesse uma nata na água do lago...
Ele esqueceu rápido que já estava percebendo que já estava
no banho faz tempo, quando viu o grilinho dar um pulinho pro lado, todo melecado
de capilaridade. Nossa, tá vivo, coitado. Ele nem pisa em formigas, tem
arroubos de ecologista, e tentou salvar o bichinho, já seu protegido.
Deu um assoprão de leve, só pra ele se virar e sair da água.
Funcionou, o bicho bateu no vidro da janela e caiu no seco. Atitude orgulhosa
do salvamento do seu semelhante, já que todos somos iguais na presença
da força da natureza, já que ele tinha vergonha de falar deus,
já que era agnóstico pra essas coisas de religião.
Ele saiu de toalha e deu uma deitadinha antes da padaria. Acabou deixando-se
sonhar até o meio-dia, uns sonhos bem tranqüilos, o sono dos justos.