Uma vida
No
varal, tudo cinza, meias, camisetas, cuecas, calças cinzas. No mais,
cinzas. Cinzas eram seu presente e futuro, pontilhados apenas por alguns grãos
de cor, sem passar do ocre, que, à pressão do segurar-se vivo,
vinham migrados do seu passado, óbvio, cinza.
A cabeça era dioturnamente amoitada sob a cúpula preta do chapéu,
que permitia vazar lapsos de olhos, já devidamente obstruídos
pelos aros de vidro. Dentro, velocidade sistemática, inteligência
minuciosa e auto-defensiva. O mais, escondido, defeso.
Radiante, êxtase, pé-no-chão, não se qualificavam
nele, nem ele permitia tal dislexia semântica com seu ser.
Um dia morreu. E, no mais, o cadáver inflou-se de paz, até que
enfim. Gozou, prostrado na evidência última do colorido dos vermes.